Venda de vagas para nova identidade em Rondônia entra na mira da Polícia Civil e expõe falhas no acesso a serviço público

Por rondonia conectada

07/07/2026

4:12 pm

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O que durante meses era tratado apenas como um “comentário de bastidores” finalmente começou a ganhar contornos de investigação oficial. A Polícia Civil de Rondônia apura denúncias de um suposto esquema de comercialização de vagas para emissão da nova Carteira de Identidade Nacional (CIN), documento cuja primeira via é gratuita e cujo acesso deveria ser garantido a todos os cidadãos.

As suspeitas surgem em meio ao crescente número de relatos de moradores que afirmam enfrentar enorme dificuldade para conseguir um simples agendamento no sistema oficial do Governo de Rondônia. Enquanto milhares de pessoas disputam as vagas disponibilizadas semanalmente, testemunhas afirmam que intermediários conseguem assegurar horários mediante pagamento, levantando questionamentos sobre como essas vagas estariam sendo obtidas.

Segundo relatos obtidos por diferentes testemunhas, a negociação ocorre principalmente por indicação entre conhecidos, grupos de WhatsApp e redes sociais. O procedimento seria simples: o interessado fornece nome completo, CPF e data de nascimento e, após o pagamento, recebe um agendamento que, para a maioria da população, parece praticamente impossível de conseguir pelos canais oficiais.

Os valores cobrados variam entre R$ 20 e R$ 50 por pessoa, embora alguns intermediários ofereçam descontos para famílias. Em alguns casos, conforme conversas compartilhadas por denunciantes, os responsáveis pelo serviço chegam a afirmar que o agendamento poderá ser cancelado caso o pagamento não seja realizado, utilizando inclusive o prazo de bloqueio do próprio sistema como forma de pressionar o cidadão.

Embora a investigação ainda esteja em andamento e não haja, até o momento, confirmação de participação de servidores públicos ou de eventual invasão ao sistema de agendamento, o simples funcionamento desse mercado paralelo levanta uma pergunta inevitável: como pessoas comuns conseguem vagas com facilidade enquanto milhares de cidadãos passam semanas, e até meses, sem sucesso?

Testemunhos começam a revelar uma realidade antes tratada como boato

O que antes circulava apenas em conversas informais agora começa a ser sustentado por testemunhos de moradores que decidiram relatar suas experiências.

Há quem afirme ter programado alarmes no celular para acessar o sistema exatamente no momento da abertura das vagas, sem jamais conseguir atendimento. Outros relatam que, poucos minutos após a liberação, todas as datas já aparecem indisponíveis.

Diante da repetição desse cenário, muitos acabam recorrendo aos chamados “agendadores”, acreditando que essa seja a única alternativa para conseguir um documento essencial para exercer direitos básicos.

A situação evidencia uma consequência preocupante: um serviço público gratuito passa a funcionar, na prática, sob uma lógica de mercado, favorecendo quem pode pagar e penalizando justamente os cidadãos em situação de maior vulnerabilidade.

Agendamento pelo whatsApp – Acervo G1

Direito básico comprometido

A dificuldade vai além do transtorno burocrático. Sem a nova identidade, muitos cidadãos encontram obstáculos para acessar serviços públicos, atualizar cadastros, obter benefícios sociais, realizar procedimentos bancários e até receber atendimento em órgãos públicos.

Casos relatados mostram pessoas impossibilitadas de retirar medicamentos ou concluir processos administrativos justamente por não conseguirem emitir o documento.

Especialistas em Direito lembram que a identificação civil não representa um benefício concedido pelo Estado, mas um direito assegurado pela Constituição Federal. Quando esse acesso se torna excessivamente difícil, cria-se uma barreira que pode comprometer outros direitos igualmente fundamentais.

Sistema sob pressão

O Governo de Rondônia atribui as dificuldades ao aumento da procura pela nova Carteira de Identidade Nacional. Segundo a Secretaria de Estado da Segurança, Defesa e Cidadania (Sesdec), houve ampliação da quantidade de vagas e implementação de medidas para melhorar o atendimento.

Outro fator apontado pelo Executivo é o elevado índice de faltas nos agendamentos. De acordo com dados apresentados pela própria secretaria, municípios como Ji-Paraná registram percentual significativo de cidadãos que marcam atendimento e não comparecem, reduzindo a disponibilidade de horários.

Ainda assim, os relatos de moradores indicam que a escassez de vagas permanece como uma realidade diária para quem depende exclusivamente do sistema oficial.

Ministério Público acompanha denúncias

O Ministério Público de Rondônia informou que acompanha a implantação da nova Carteira de Identidade Nacional e mantém diálogo com os órgãos responsáveis pela emissão do documento.

O órgão confirmou ter recebido denúncias envolvendo possível comercialização de vagas e informou que medidas de segurança foram implantadas no sistema para dificultar fraudes. Os casos que apresentarem indícios de crime estão sendo encaminhados às Promotorias de Justiça competentes.

Paralelamente, a Polícia Civil conduz a investigação para identificar quem estaria por trás da suposta venda de agendamentos e verificar se houve exploração de vulnerabilidades no sistema ou eventual participação de terceiros com acesso privilegiado às vagas.

Muito além de um problema tecnológico

Se as investigações confirmarem as suspeitas, Rondônia poderá estar diante de um problema que ultrapassa as limitações de um sistema eletrônico.

Quando um serviço público gratuito passa a ser comercializado clandestinamente, o prejuízo não se limita ao cidadão que paga. A principal vítima é justamente quem não tem condições financeiras de entrar nesse mercado paralelo e permanece à margem de um direito que deveria ser universal.

Agora, caberá às investigações esclarecer se a escassez de vagas decorre apenas do excesso de demanda ou se existe, de fato, um esquema organizado lucrando sobre uma necessidade básica da população. Enquanto essas respostas não chegam, cresce entre os rondonienses a sensação de que conseguir uma vaga para emitir um documento público depende menos da sorte e mais da existência de um mercado que jamais deveria ter surgido.

Redação com fontes do G1

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